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E Não Sobrou Nenhum é um clássico dos romances de mistério escrito por Agatha Christie. O nome original da obra é Ten Little Niggers (aqui era O Caso dos Dez Negrinhos), fora mudado nos EUA e posteriormente aqui por causa da relação com racismo. O título faz alusão a uma cantiga infantil tradicional na Inglaterra.

O livro começa com uma apresentação rápida dos personagens durante o caminho que eles percorreram até alcançar a Ilha do Soldado (na versão que li, onde "os negrinhos" do poema foram trocados por soldadinho, não conheço as edições mais antigas). A ilha tinha sido comprada recentemente por um Mr. Owens e vinha sendo cercada de mistérios e fofocas.

Todos os convidados parecem muito diferentes uns dos outros e formam um grupo estranho, como é notado pelo marinheiro que os leva até a ilha em sua lancha. São recebidos por dois empregados, após se acomodarem em seus respectivos quartos eles fazem uma refeição e se reúnem após em uma sala de estar. Aos poucos eles vão percebendo algumas inconsistências nas histórias que os atraíram até a ilha, ninguém parecia conhecer os anfitriões, Mr. e Mrs. Owens, ninguém sequer os havia visto.

É então que um vinil é posto pra tocar e uma voz sinistra acusa a todos os oito convidados e o casal de empregados de assassinato em circunstancias bem diferentes, mas todos praticamente impossíveis de se provar. Todos ficam apavorados e indignados com a aparente brincadeira até que um por um eles começam a morrer, seguindo de maneira macabra os versos do poema, o qual podia ser encontrado na parede de todos os quartos.

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove,
um deles se engasgou, e então restaram nove;
Nove negrinhos sem dormir, não é biscoito!
um deles cai no sono, então sobraram oito;
Oito negrinhos vão a Devon em charrete,
um deles quis ficar, então restaram sete;
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
um deles se corta, então restaram seis;
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco,
a abelha picou um, e então ficaram cinco,
Cinco negrinhos vão ao fórum tomar ares,
um deles foi julgado, então sobraram dois pares;
Quatro negrinhos vão ao mar, a um tragou de vez
o arenque defumado, e então sobraram três;
Três negrinhos vão passear no zoológico. E depois?
o urso abraçou um, e então ficaram dois;
Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum
um deles se queimou, e restou apenas um;
Um negrinho está sozinho, é só um!
ele se enforcou, e não sobrou nenhum.

Os personagens são interessantes, mas eu não decorei o nome de ninguém até que tinha praticamente acabado de ler. A resolução foi uma completa surpresa pra mim e fiquei maravilhado com o quão na cara era a resposta. A narrativa da autora me fez de bobo desde o começo do livro. Cada vez que eu escolhia alguém pra ser o assassino ela me contradizia, um por um, como se adivinhasse o que eu estava pensando.

A leitura me prendeu facilmente e não consegui parar até ter terminado. Se pudesse teria lido ele todo de uma vez, mas eu preciso estudar, dormir, comer, etc. Fico pensando se todos os romances dela são assim tão instigantes.

Volume I - O Garoto-Cabra

A Lenda de Ruff Ghanor é uma história com raízes em uma aventura de RPG cheia de humor do Nerdcast, e Leonel Caldela faz um ótimo trabalho em transformar os improvisos do Jovem Nerd em uma narrativa completa, instigante e divertida.

A mitologia é bem interessante, existem santos, deuses, demônios, anãos, elfos (que são apenas mencionados), dragões, etc. Com um cenário de RPG medieval clássico com elementos novos, uma história de origem muito boa e conflitos que vão crescendo em volta de mitos e acontecimentos.

Ruff tem as origens de um herói clássico: é órfão, é o escolhido e está destinado a grandes feitos. A primeira parte da trama trata de sua infância e de seu treinamento com o prior do mosteiro de São Arnaldo (Sim, é São e não Santo), um homem com porte de guerreiro e um passado misterioso. Ruff é criado pra ser um devoto e a servir a sua fé. O prior vê nele uma dadiva dos deuses, um garoto destinado a libertar a terra da tirania de Zamir, um dragão vermelho que governa os humanos, aterrorizando-os e causando sofrimento. Pra essa tarefa ele é treinado de forma intensa em combate, em cura pela fé e tem um regime também intenso de estudos.

Além de seus irmão no mosteiro há duas figuras muito importante na vida de Ruff: Korin, que é seu melhor amigo e companheiro de aventuras, e Áxia, por quem ele se apaixona. Korin é um garoto pobre, filho de guarda da pequena vila, que sonha em seguir os passos do pai ajudando a proteger as pessoas. Ele serve de contraponto a Ruff que é poderoso, ele é humano e ordinário, ao mesmo tempo tem em si a perseverança e coragem do maior dos heróis. Áxia é ainda mais pobre e sofrida que Korin, sua mãe lava roupa o dia todo e a noite trabalha na taberna "entretendo", e seu irmão mais novo tem problemas mentais. Eles se conhecem quando Ruff salva ela e o irmão de serem apedrejados por garotos mais velhos. Áxia é inteligente e problemática, e também se envolve com magia arcana.

Um dos melhores aspectos da narrativa é que ela vem permeada por questionamento teológicos e filosóficos. Apesar das convicções do personagem toda evolução moral de Ruff é marcada por tons de cinza, criando uma evolução bem definida do herói que é facilmente acompanhado pelo leitor.
Os personagens centrais são desenvolvidos muito bem e são fáceis de simpatizar. A amizade entre Ruff e Korin protagoniza as melhores passagens de todo o livro. O romance é bom, porém em alguns momentos a relação entre Ghanor e Áxia toma toda a história e os outros são deixados de lado, em algumas partes eu senti falta da presença de Korin pra deixar a história menos tensa e nivelar o tom com o resto do livro.

Outra coisa que me incomodou é como os conflitos internos são apresentados. Eles são descritos de maneira bem direta e pouca coisa nos sentimentos do personagens é deixado para especulação, o que é meio frustrante pra mim. Nada que prejudique o livro, é um gosto pessoal.
Apesar desses dois pontos a narrativa é muito envolvente, a ação é excelente, bem descrita e empolgante. O desfecho surpreendente deixa um ótimo cliffhang pro próximo.

O propósito principal de uma boa ficção cientifica é debater e levantar questões que preenchem a mente das pessoas e apresentando-as em diferentes perspectivas. A ficção cientifica é, em seu melhor, geradora de intenso debate e de grandes reflexões sobre a realidade e o pensamento.

Em A Mão Esquerda da Escuridão, publicada aqui pela editora Aleph, Ursula K. Le Guin coloca um humano em contato com o planeta de Gethen, ou Winter (Inverno), onde ele conhece outros tipos de humanos que são bem diferentes do que nós chamamos de humanos.

Genly Ai, o protagonista, é um enviado de Ekumen, uma aliança de planetas com vida inteligente (ou de humanos), com o propósito de oferece-los um lugar na mesma. Ekumen é principalmente um canal de troca de conhecimento e cultura - já que a viagem interplanetária é muito demorada, mas a comunicação entre os planetas é praticamente instantânea com os equipamentos certos - e tem como intuito ajudar no desenvolvimento das civilizações humanas.

Na narrativa nós somos os alienígenas visitando o planeta dos outros em nossas espaçonaves. Conhecendo uma cultura que nasceu em um ambiente de frio extremo, quase que completamente hostil, com um desenvolvimento muito adverso ao que os outros oitenta e três planetas que já compõem a aliança conhecem.

No ponto central das diferenças fica a componente biológica da sexualidade: em Gethen as pessoas não tem um sexo definido sempre, eles são andróginos na maior parte do tempo. Em determinados períodos os gethenianos entram em kemmer e acontecem mudanças em sua fisiologia para que assumam um ou outro papel sexual. Sua relação com a sexualidade também é diferente, os gethenianos não parecem competir por parceiros e em geral não tem nenhum sentimento sexual fora do período determinado por seu kemmer. Isso muda a dinâmica das competições sociais em relação ao que se é acostumado a ter entre seres com sexos definidos. Do mesmo jeito, a violência e a criação dos filhos é tratada diferente.

Toda a leitura é uma imersão nesse novo mundo, com essa nova sociedade e suas crenças e política. Fascinante do início ao fim. A autora nos leva por muitas situações diferentes, dando uma visão geral de todas as classes sociais e modos de vida contidos em pelo menos dois dos reinos de Gethen, nos mostrando que mesmo sendo tão diferentes todos temos nosso jeito de causar sofrimento e de sentir amor.

Mark Haddon é um escritor britânico de livros infantis. O Estranho Caso do Cachorro Morto, que também foi publicado para o publico adulto, é um de seus trabalhos mais premiados.

O livro de 2003 é narrado por Christopher Boone um garoto de 15 anos que tem algum nível de autismo. A história começa com Christopher encontrando o cachorro de sua vizinha Sra. Shears, um grande poodle preto, morto com um garfo de jardinagem (bem ilustrado pela capa do livro). Após uma pequena confusão Christopher decide descobrir quem matou Wellington, o cachorro e incentivado por Siobhan, uma de suas professoras, escrever a historia em um livro, como uma história de mistério (Murder Mystery).

Apesar da proposta de Christopher ser de escrever um mistério, o mistério não dura muito e além de descobrir quem assassinou Wellington, o cachorro, segredos importantes vem a tona. Esses segredos, ou mentiras, causam muito aborrecimento a ele, o que é particularmente problemático por causa de sua condição. Por fim Christopher acaba sendo forçado a sair de sua zona de conforto e acaba com problemas maiores do que parece entender.

O que realmente faz do livro uma ótima leitura é o modo como Haddon consegue trazer o leitor a vida de Christopher. A narrativa segue pela maior parte do tempo uma linha de pensamentos linear e quase sempre ele descreve e/ou explica coisas que não necessitam dessa descrição/explicação.

Christopher pensa de maneira bem peculiar, ele vê realmente as coisas em vez de apenas olhar como a maioria das pessoas, então lugares com muitas coisas acontecendo ou lugares novos são coisas problemáticas e assustadoras. Ele também não entende porque a morte do cachorro é tida como uma coisa menor pelas pessoas com quem convive e apesar de se considerar uma pessoa lógica tem diversas dificuldades com coisas que não são.

No texto Christopher usa constantemente "E" pra conectar as idéias apresentadas, é bom com matemática e gosta de números primos, por isso os capítulos são numerados com eles. Ele também não se dá bem com figuras de linguagem e prefere apresentar desenhos das coisas que fala ao invés de descreve-las. Isso deixa o texto diferente de outras narrativas causando um estranhamento, do bom tipo como em Laranja Mecânica.

A trama também é poderosa, ela descreve as dificuldades que alguém que é diferente tem na vida, as dificuldades que as pessoas que se propõem a cuidar delas tem e como as pessoas conseguem ser muito egoístas.

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