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E Não Sobrou Nenhum é um clássico dos romances de mistério escrito por Agatha Christie. O nome original da obra é Ten Little Niggers (aqui era O Caso dos Dez Negrinhos), fora mudado nos EUA e posteriormente aqui por causa da relação com racismo. O título faz alusão a uma cantiga infantil tradicional na Inglaterra.

O livro começa com uma apresentação rápida dos personagens durante o caminho que eles percorreram até alcançar a Ilha do Soldado (na versão que li, onde "os negrinhos" do poema foram trocados por soldadinho, não conheço as edições mais antigas). A ilha tinha sido comprada recentemente por um Mr. Owens e vinha sendo cercada de mistérios e fofocas.

Todos os convidados parecem muito diferentes uns dos outros e formam um grupo estranho, como é notado pelo marinheiro que os leva até a ilha em sua lancha. São recebidos por dois empregados, após se acomodarem em seus respectivos quartos eles fazem uma refeição e se reúnem após em uma sala de estar. Aos poucos eles vão percebendo algumas inconsistências nas histórias que os atraíram até a ilha, ninguém parecia conhecer os anfitriões, Mr. e Mrs. Owens, ninguém sequer os havia visto.

É então que um vinil é posto pra tocar e uma voz sinistra acusa a todos os oito convidados e o casal de empregados de assassinato em circunstancias bem diferentes, mas todos praticamente impossíveis de se provar. Todos ficam apavorados e indignados com a aparente brincadeira até que um por um eles começam a morrer, seguindo de maneira macabra os versos do poema, o qual podia ser encontrado na parede de todos os quartos.

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove,
um deles se engasgou, e então restaram nove;
Nove negrinhos sem dormir, não é biscoito!
um deles cai no sono, então sobraram oito;
Oito negrinhos vão a Devon em charrete,
um deles quis ficar, então restaram sete;
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
um deles se corta, então restaram seis;
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco,
a abelha picou um, e então ficaram cinco,
Cinco negrinhos vão ao fórum tomar ares,
um deles foi julgado, então sobraram dois pares;
Quatro negrinhos vão ao mar, a um tragou de vez
o arenque defumado, e então sobraram três;
Três negrinhos vão passear no zoológico. E depois?
o urso abraçou um, e então ficaram dois;
Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum
um deles se queimou, e restou apenas um;
Um negrinho está sozinho, é só um!
ele se enforcou, e não sobrou nenhum.

Os personagens são interessantes, mas eu não decorei o nome de ninguém até que tinha praticamente acabado de ler. A resolução foi uma completa surpresa pra mim e fiquei maravilhado com o quão na cara era a resposta. A narrativa da autora me fez de bobo desde o começo do livro. Cada vez que eu escolhia alguém pra ser o assassino ela me contradizia, um por um, como se adivinhasse o que eu estava pensando.

A leitura me prendeu facilmente e não consegui parar até ter terminado. Se pudesse teria lido ele todo de uma vez, mas eu preciso estudar, dormir, comer, etc. Fico pensando se todos os romances dela são assim tão instigantes.

Volume I - O Garoto-Cabra

A Lenda de Ruff Ghanor é uma história com raízes em uma aventura de RPG cheia de humor do Nerdcast, e Leonel Caldela faz um ótimo trabalho em transformar os improvisos do Jovem Nerd em uma narrativa completa, instigante e divertida.

A mitologia é bem interessante, existem santos, deuses, demônios, anãos, elfos (que são apenas mencionados), dragões, etc. Com um cenário de RPG medieval clássico com elementos novos, uma história de origem muito boa e conflitos que vão crescendo em volta de mitos e acontecimentos.

Ruff tem as origens de um herói clássico: é órfão, é o escolhido e está destinado a grandes feitos. A primeira parte da trama trata de sua infância e de seu treinamento com o prior do mosteiro de São Arnaldo (Sim, é São e não Santo), um homem com porte de guerreiro e um passado misterioso. Ruff é criado pra ser um devoto e a servir a sua fé. O prior vê nele uma dadiva dos deuses, um garoto destinado a libertar a terra da tirania de Zamir, um dragão vermelho que governa os humanos, aterrorizando-os e causando sofrimento. Pra essa tarefa ele é treinado de forma intensa em combate, em cura pela fé e tem um regime também intenso de estudos.

Além de seus irmão no mosteiro há duas figuras muito importante na vida de Ruff: Korin, que é seu melhor amigo e companheiro de aventuras, e Áxia, por quem ele se apaixona. Korin é um garoto pobre, filho de guarda da pequena vila, que sonha em seguir os passos do pai ajudando a proteger as pessoas. Ele serve de contraponto a Ruff que é poderoso, ele é humano e ordinário, ao mesmo tempo tem em si a perseverança e coragem do maior dos heróis. Áxia é ainda mais pobre e sofrida que Korin, sua mãe lava roupa o dia todo e a noite trabalha na taberna "entretendo", e seu irmão mais novo tem problemas mentais. Eles se conhecem quando Ruff salva ela e o irmão de serem apedrejados por garotos mais velhos. Áxia é inteligente e problemática, e também se envolve com magia arcana.

Um dos melhores aspectos da narrativa é que ela vem permeada por questionamento teológicos e filosóficos. Apesar das convicções do personagem toda evolução moral de Ruff é marcada por tons de cinza, criando uma evolução bem definida do herói que é facilmente acompanhado pelo leitor.
Os personagens centrais são desenvolvidos muito bem e são fáceis de simpatizar. A amizade entre Ruff e Korin protagoniza as melhores passagens de todo o livro. O romance é bom, porém em alguns momentos a relação entre Ghanor e Áxia toma toda a história e os outros são deixados de lado, em algumas partes eu senti falta da presença de Korin pra deixar a história menos tensa e nivelar o tom com o resto do livro.

Outra coisa que me incomodou é como os conflitos internos são apresentados. Eles são descritos de maneira bem direta e pouca coisa nos sentimentos do personagens é deixado para especulação, o que é meio frustrante pra mim. Nada que prejudique o livro, é um gosto pessoal.
Apesar desses dois pontos a narrativa é muito envolvente, a ação é excelente, bem descrita e empolgante. O desfecho surpreendente deixa um ótimo cliffhang pro próximo.

O propósito principal de uma boa ficção cientifica é debater e levantar questões que preenchem a mente das pessoas e apresentando-as em diferentes perspectivas. A ficção cientifica é, em seu melhor, geradora de intenso debate e de grandes reflexões sobre a realidade e o pensamento.

Em A Mão Esquerda da Escuridão, publicada aqui pela editora Aleph, Ursula K. Le Guin coloca um humano em contato com o planeta de Gethen, ou Winter (Inverno), onde ele conhece outros tipos de humanos que são bem diferentes do que nós chamamos de humanos.

Genly Ai, o protagonista, é um enviado de Ekumen, uma aliança de planetas com vida inteligente (ou de humanos), com o propósito de oferece-los um lugar na mesma. Ekumen é principalmente um canal de troca de conhecimento e cultura - já que a viagem interplanetária é muito demorada, mas a comunicação entre os planetas é praticamente instantânea com os equipamentos certos - e tem como intuito ajudar no desenvolvimento das civilizações humanas.

Na narrativa nós somos os alienígenas visitando o planeta dos outros em nossas espaçonaves. Conhecendo uma cultura que nasceu em um ambiente de frio extremo, quase que completamente hostil, com um desenvolvimento muito adverso ao que os outros oitenta e três planetas que já compõem a aliança conhecem.

No ponto central das diferenças fica a componente biológica da sexualidade: em Gethen as pessoas não tem um sexo definido sempre, eles são andróginos na maior parte do tempo. Em determinados períodos os gethenianos entram em kemmer e acontecem mudanças em sua fisiologia para que assumam um ou outro papel sexual. Sua relação com a sexualidade também é diferente, os gethenianos não parecem competir por parceiros e em geral não tem nenhum sentimento sexual fora do período determinado por seu kemmer. Isso muda a dinâmica das competições sociais em relação ao que se é acostumado a ter entre seres com sexos definidos. Do mesmo jeito, a violência e a criação dos filhos é tratada diferente.

Toda a leitura é uma imersão nesse novo mundo, com essa nova sociedade e suas crenças e política. Fascinante do início ao fim. A autora nos leva por muitas situações diferentes, dando uma visão geral de todas as classes sociais e modos de vida contidos em pelo menos dois dos reinos de Gethen, nos mostrando que mesmo sendo tão diferentes todos temos nosso jeito de causar sofrimento e de sentir amor.

Mark Haddon é um escritor britânico de livros infantis. O Estranho Caso do Cachorro Morto, que também foi publicado para o publico adulto, é um de seus trabalhos mais premiados.

O livro de 2003 é narrado por Christopher Boone um garoto de 15 anos que tem algum nível de autismo. A história começa com Christopher encontrando o cachorro de sua vizinha Sra. Shears, um grande poodle preto, morto com um garfo de jardinagem (bem ilustrado pela capa do livro). Após uma pequena confusão Christopher decide descobrir quem matou Wellington, o cachorro e incentivado por Siobhan, uma de suas professoras, escrever a historia em um livro, como uma história de mistério (Murder Mystery).

Apesar da proposta de Christopher ser de escrever um mistério, o mistério não dura muito e além de descobrir quem assassinou Wellington, o cachorro, segredos importantes vem a tona. Esses segredos, ou mentiras, causam muito aborrecimento a ele, o que é particularmente problemático por causa de sua condição. Por fim Christopher acaba sendo forçado a sair de sua zona de conforto e acaba com problemas maiores do que parece entender.

O que realmente faz do livro uma ótima leitura é o modo como Haddon consegue trazer o leitor a vida de Christopher. A narrativa segue pela maior parte do tempo uma linha de pensamentos linear e quase sempre ele descreve e/ou explica coisas que não necessitam dessa descrição/explicação.

Christopher pensa de maneira bem peculiar, ele vê realmente as coisas em vez de apenas olhar como a maioria das pessoas, então lugares com muitas coisas acontecendo ou lugares novos são coisas problemáticas e assustadoras. Ele também não entende porque a morte do cachorro é tida como uma coisa menor pelas pessoas com quem convive e apesar de se considerar uma pessoa lógica tem diversas dificuldades com coisas que não são.

No texto Christopher usa constantemente "E" pra conectar as idéias apresentadas, é bom com matemática e gosta de números primos, por isso os capítulos são numerados com eles. Ele também não se dá bem com figuras de linguagem e prefere apresentar desenhos das coisas que fala ao invés de descreve-las. Isso deixa o texto diferente de outras narrativas causando um estranhamento, do bom tipo como em Laranja Mecânica.

A trama também é poderosa, ela descreve as dificuldades que alguém que é diferente tem na vida, as dificuldades que as pessoas que se propõem a cuidar delas tem e como as pessoas conseguem ser muito egoístas.

A distopia de George Orwell é marcada profundamente por seu conhecimento politico e seus receios contra o totalitarismo.

Ambientada em um futuro onde governos ditatoriais tem o controle do mundo a sociedade do romance é dividida em um sistema de castas com: o Partido Interno sendo a elite no controle, o Partido Externo sendo os funcionários do governo e os Proles como trabalhadores comuns e pessoas de pouca instrução. As descrições feitas pelo autor do cenário transmitem ao leitor a situação aterrorizante de um regime totalitário, marcado por campanhas de controle e adequação de informações com objetivo de reforçar as diretrizes do partido e manter o controle.

O protagonista, Winston Smith, é membro do Partido Externo, que representa a elite intelectual e alvo primário das politicas de duplipensamento, a doutrina do Partido, que consiste no "poder de manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer fato que tenha se tornado inconveniente". Ele também é funcionário do Ministério da Verdade, responsável por alterações em documentos, jornais e textos históricos, apagando qualquer contradição aos pronunciamentos do Partido.

O autor cria um regime sólido baseado nos regimes comunista e fascista, principais alvos de sua critica. E esse detalhamento é o maior desafio do livro. A construção do ambiente e o entendimento dos mecanismos do regime são o foco de Orwell e deixam o livro pouco dinâmico. A leitura é pesada e pode ser cansativa.

Por outro lado cada pedaço de informação é relevante e o intuito do romance é alcançado perfeitamente ao termino da leitura. A desolação que senti quando fechei o livro só é superada pelo sentimento de que aprendi algo muito importante.

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro não é um clássico atoa, ele mostra exatamente o tipo de sociedade na qual não quero viver.

Filhos do Fim do Mundo é a primeira publicação de Fábio Barreto e essa leitura faz parte da minha cruzada em favor dos novos escritores brasileiros de bons livros.

Eu acompanho alguns dos projetos do Fábio Barreto e admiro muito o trabalho dele quando o assunto é jornalismo cinematográfico, me identifico com diversas de suas opiniões, etc. No demais eu tentei ser totalmente imparcial na leitura.

Mesmo sem conhecer o autor o gênero do livro já seria suficiente pra me cativar. Tenho gostado muito dos títulos que li nos últimos meses que seguem a linha de sobrevivência e muitos desses elementos que me atraem podem ser encontrados no Filhos do Fim do Mundo.

Um dos diferenciais mais notados no livro é a ausência de nomes dos personagens que teria o intuito de não prender a história a um lugar em especifico, assim como não são mencionadas datas dando um caráter atemporal a mesma. Porém, diversos elementos nos dão indicações da localização deixando meio difícil de não reparar nas similaridades com um país em especifico.

Umas das coisas que mais gostei no livro foram as interações humanas, em muitas passagens é possível entender exatamente o sentimento que o autor queria transmitir e é muito fácil simpatizar com os personagens. Eu me identifiquei bastante com o protagonista e consegui entender todas suas decisões durante a jornada, até mesmo as ruins, e isso deixou a história mais verdadeira pra mim.

Do mesmo jeito é possível entender perfeitamente as motivações dos personagens e suas reações ao Evento Zero, que são muito orgânicas e dão peso a narrativa. Outro ponto forte da obra.

A leitura é fluida e prende o leitor, não tem partes monótonas nem explicações desnecessárias. A ação é bem arquitetada, toda história tem um tom cinematográfico bem dinâmico e a carga dramática não é grande ao ponto sobrecarregar a leitura.

Meu único problema com o livro foram uns poucos diálogos que me passaram uma sensação mecânica e impessoal, destoando da construção dos personagens. Diálogos que ficaram um pouco forçados para que certas informações fossem passadas.

O desfecho é magnifico, uma mescla perfeita de tragédia e esperança. Talvez com umas frases de efeito de conteúdo duvidoso, mas ainda assim excelente.

Quem leu O Nome do Vento e O Temor do Sábio provavelmente está muito ansioso para pôr as mão no terceiro livro das Crônicas do Matador do Rei de Patrick Rothfuss. Mas esse livro não é pra você.
The Slow Regard of Silent Things, ou A Música do Silêncio como ficou na versão brasileira, é uma história da Auri, personagem dos livros, e do mundo dela, sobre o mundo dela, eu diria.

Apesar de não conter nenhuma linha narrativa normal e ser quase que completamente alheia a história de Kvothe, talvez o leitor mais dedicado consiga identificar algumas coisas interessantes sobre uma das grandes atrações dos livros, o nome das coisas. A relação de Auri com lugares e objetos é certamente única e nos dá um certo insight sobre estruturas importantes da narrativa, ou pelo menos de como o autor encara essas estruturas.

O principal é o jeito com que ela encara as coisas, os lugares, os objetos, tudo que não tem uma consciência evidente. Ela entende, ou pensa entender, o lugar próprio das coisas, seus sentimento e suas personalidades. O texto é mais filosófico, talvez, que uma narrativa. A sensação que tive com a leitura foi de ler um poema, me senti entendendo a cabeça da Auri mais que qualquer outra coisa. E é assim que acredito que o autor visualiza a cabeça de alguém de entende de verdade o nome das coisas e o papel das coisas no mundo.

Da mesma forma temos uma protagonista com um problema, um distúrbio. Uma protagonista que entrou em contato com um mundo novo e não consegue mais conciliar essa nova descoberta com o mundo antigo e parece ter resolvido se isolar. O conflito é dela contra si mesma e contra a ordem das coisas. É uma história sobre o funcionamento dela em sua casa com suas coisas, sua relação com o seu próprio mundo.

The Martian ou, como ficou a tradução aqui no Brasil, Perdido em Marte (eeh...), é o primeiro romance publicado de Andy Weir. Eu li por causa da recomendação de um vlogger que sigo. Além do fato de a sinopse ter me deixado bem animado.

E não me decepcionei com quase nada. O formato é interessante e a trama é instigante. Outro ponto forte é o protagonista, Mark Watney, que é bem divertido.

O livro é sobre um astronauta americano que acaba deixado em Marte por sua equipe após uma tempestade de areia comprometer a missão. Durante a qual Mark é ferido por um pedaço da antena de comunicação e tido como morto.

A maior parte da história é narrada pelo protagonista através de "logs". Mark é um cara divertido e um ótimo botânico/engenheiro, assim, grande parte do que ele escreve são piadas sobre sua situação e descrições técnicas dos procedimentos a qual ele recorre em ordem de sobreviver no planeta até ter a chance de ser resgatado.

Grande parte do que faz o livro bom são as partes técnicas, eximiamente descritas e provavelmente bem plausíveis. Ainda assim o fato de apenas termos contato com o que o próprio Mark escreve, na maior parte do tempo, deixa o drama da situação aquém do que poderia, um tanto raso. Mesmo assim toda a ação é bem descrita e empolgante.

Depois de algum tempo acompanhando Mark, outros personagens são introduzidos a trama e temos um vislumbre de como o resgate é arquitetado. Outra vez a politica das preparações é um pouco rasa, mas nada que comprometa o divertimento, só deixa uma sensação de que poderia ter sido ainda melhor. Os personagens secundários são ótimos, com personalidades bem definidas e todos são muito bem inseridos na narrativa.

É um ótimo livro de ação e tudo indica que ele terá uma versão cinematográfica nos próximos anos. Se bem executado podemos ter um ótimo filme sobre exploração espacial em breve, o que me deixa ansioso.
Eu acordei agitado novamente. Suando. Ainda vendo seu rosto. Eram três da manhã, sempre três da manhã. O mundo continuava silencioso, adormecido. Uma brisa fraca soprou a cortina da janela entreaberta.
Sentei devagar, enterrei o rosto entre as mãos, segurando a respiração, engasgando. A primeira lagrima era sempre a mais difícil, ela resistia a todo custo, arranhava, se debatia. Meu corpo tremia por inteiro. Minha saliva tinha gosto de sangue.
Ela enfim se deixou cair. Primeiro silenciosamente, depois com um urro feroz de um animal ferido. Seguida de socos e chutes, de desespero e ódio.
Cada centímetro de meu corpo se tencionava em dor, uma dor interna. Uma dor que repuxa os músculos, que impede o grito em vez de necessitá-lo. O corpo se chacoalha, mordo o lábio e perco o ar. Dor de verdade, do tipo que não passa, que não responde a anestesia, que mata.

Todo que eu sei sobre a lenda do Rei Artur é o que foi referenciado na cultura pop que eu consumo. Alguns nomes, o Merlin, um filme ou outro sobre Artur, mas nunca havia lido a lenda em si, ainda que sempre tenha tido vontade.

Nesse último mês tive a oportunidade de comprar os dois primeiros livros d'As Crônicas de Artur de Bernard Cornwell, que são meio difíceis de achar com um bom preço, já que eu não queria a edição econômica. E já li o primeiro, O Rei do Inverno, e pouco mais da metade do segundo, O Inimigo de Deus. Quando eu entrei em contato a primeira vez com o trabalho de Bernard Cornwell a trilogia foi a mais indicada, sendo considerada por muitos a melhor serie que ele já escreveu.

A historia acompanha Derfel, um saxão criado por Britânicos nas terras de Merlin que acaba como um guerreiro no exercito de Artur e também se torna amigo do mesmo. Tendo uma pegada mais "real", Artur é um bastardo de Uther, Merlin é um druida e a magia é bem menos evidente, tratada como religião. Alguns fenômenos inexplicáveis, mas que não podem ser chamados de magia propriamente.

O cenário é uma Britânia pós romana em conflito interno e cercada de inimigos como saxões e irlandeses. Onde existe uma disputa entre a religião pagã e o cristianismo em ascensão. Começa com o nascimento do filho do herdeiro de Dumnonia, Mordred, neto de Uther. O herdeiro, filho legitimo de Uther, morre em batalha ao lado de Artur, que já era considerado um grande guerreiro. Assim, já que o Grande Rei está morrendo, protetores devem ser escolhidos para que o direito de Mordred seja garantido ao atingir idade suficiente.

A morte de Uther desencadeia uma serie de conflitos e quando Artur é colocado na posição de protetor de Mordred e governante de Dumnonia ele traça para a Britânia um caminho em direção a paz, e esse objetivo é o que carrega a narrativa pelo resto do livro e, até onde eu sei, o pelos outros também.

A grande ideia do livro é desconstruir a lenda de Artur e de seus personagens icônicos, trazendo-os para o patamar dos humanos normais e entregar uma visão bem diferente do que eles poderiam ter sido. Bernard Cornwell usa também de uma extensa pesquisa para construir um cenário o mais próximo da realidade da época quanto é possível o que acrescenta muito a leitura . O livro é ótimo, as batalhas são muito bem descritas, as estratégias e os conflitos são muito bons e os personagens são carismáticos, principalmente Merlin que me faz rir sempre que aparece.

Estranho é a palavra perfeita pra descrever a narrativa de Anthony Burgess.

No começo da edição da Aleph que eu tenho é recomendado que não se leia o glossário nadsat no fim do livro. O intuito é que se tenha a mesma experiência que os leitores tiveram nos anos 1960, quando o livro foi originalmente publicado e a estranheza que ainda se deve ter entre os leitores ingleses onde o glossário não é publicado. E ela é entregue desde o começo.

Alex é o que se esperaria de um adolescente, pelo menos no que se trata da confusão em que as coisas acontecem eu sua cabeça. E o nadsat não te ajuda com isso. Eu só fiquei confortável com os termos depois de quase metade do livro e ainda assim as vezes eu me confundia.

É incrível o quão atuais são os escritos de Burgess. Ele descreve uma sociedade que tem medo de seus jovens, que são violentos e descontrolados e com um sistema carcerário precário que só faz corromper ainda mais. E o nosso Humilde Narrador é o mais perfeito exemplo. Um garoto que se diverte com o sofrimento alheio, que se sente dono do mundo e, como ele mesmo diz, quase como o próprio Deus, ou Bog.

Até que ele vai parar na prisão e lhe é aplicada uma nova e controversa técnica de reabilitação de condicionamento. Um método bárbaro chamado Tratamento Ludovico. Que consiste em forçar o detento a assistir filmagens violentas por grandes períodos de tempo, enquanto sob efeito de drogas, o que provoca um efeito de experiência de quase-morte. Após ser obrigado a ver tais imagens horríveis Alex tornar-se incapacitado ou senti-se indisposto se tentar realizar ou se testemunhar atos de violência.

E mesmo assim a ideia central da estoria é de falta de controle, é de como não se pode impedir os jovens de serem jovens e de como o ser humano realmente funciona.
Ela já estava tão perto que eu não tinha mais como recuar. Olhando em seus olhos brilhantes, ouvindo sua respiração suave, podia sentir a expectativa crescendo a nossa volta.
O primeiro toque em seus lábios foi leve e macio, ela recuou de leve, o corpo tensionado como o de um animal acuado. O segundo toque foi mais demorado e molhado, seu corpo relaxou e se entregou. As suas mãos em volta de meu corpo apertaram o abraço. Eu me sentia muito quente, quase febril. A única coisa em minha mente era seu rosto sorridente, como o primeiro raio de luz do dia, ou a brisa fresca num dia quente. O momento se estendia, minha mão passeava por suas costas, aumentando a tensão. Era quase impossível me controlar pra manter a decência em um local publico. Separamo-nos sem ar e seu rosto feliz, o proposito de minha vida, voltou a me iluminar com um sorriso. Dei um beijo em seu rosto e coloquei o anel em seu dedo. Foi o sim mais importante que já havia recebido.
De mãos dadas saímos do restaurante sobre olhares curiosos das outras pessoas e o olhar indignado de um senhor de meia idade. Provavelmente nunca tinha visto um pedido de casamento.


A janela aberta era a única fonte de luz no quarto destruído. O ar se enchia de poeira e pedaços de madeira, o guarda roupa tinha sido reduzido a um amontoado de lascas e ripas que se espalhavam pelo chão junto de pedaços de concreto e vidro estilhaçado. A cama estava aparentemente intacta, apesar dos sinais de que alguém a usará recentemente.
Seu corpo estava encostado na parede oposta a janela aberta. A respiração era o único som audível por cima do barulho do trânsito e das sirenes. Uma respiração chiada e irregular, entrecortada por suspiros e gemidos abafados. O rosto velho oscilava entre uma expressão de dor e uma de serenidade, a cabeça caía em direção ao peito para ser levantada quase imediatamente depois.
As sirenes ficavam cada vez mais audíveis sobre o ruído do tráfego.
De repente o velho se chacoalhou em uma gargalhada breve seguida de um engasgo. Caído ao seu lado uma velha arma que tinha sido sua parceira em diversos outros serviços. Sua mão tremula se fechou vagarosamente em torno do punho. Levantou-a até o colo no mesmo ritmo.
Tinha sido emboscado dessa vez, era óbvio pra ele que tinha sido mandado ali pra morrer. Ossos do ofício. Provavelmente um bando de traficantes em um carro, não tinham nem mesmo conferido o serviço. Amadores.
Conferiu o tambor, ainda tinha duas balas. Levou devagar a arma em direção de seu rosto. 
Colocou o cano da arma na boca. 
O gosto do metal frio era reconfortante, aos poucos sua respiração foi normalizando e a ansiedade diminuindo.
Pra maioria seria um fim indigno, mas pra ele era libertador.
Cessaria a angustia com um último trabalho.

Semana passada eu ganhei a Cortesia no Skoob do Confissões de Adolescente e um par de ingressos pro filme (Foto no fim do post). Chegou uma carta com os ingressos na sexta e na segunda o livro. Eu cheguei de viajem na terça e ontem peguei pra dar uma olhada.

Não é o tipo de livro que eu procuro pra ler, geralmente, mas quando eu o abri e olhei por dentro, pensei: É tão pequeno, vou ler aqui rapidinho. Em uma hora aproximadamente eu li ele todo. É realmente bem pequeno, tem muitas ilustrações, fotos e páginas com apenas uma frase.

Pra minha surpresa ele é bem interessante. Foi preconceito meu pensar que era apenas mais um livro adolescente de romance, que não são de meu interesse no geral. E quando eu terminei de ler fiquei impressionado com os textos.

Não é um texto com grande profundidade, nem é uma historia, na verdade. É um conjunto de algumas passagens do diário de uma menina na adolescência e me pareceu bem real. Não fiquei com vontade de ver o filme, mas eu pagaria para ver a peça de teatro sem pensar duas vezes.

No demais é uma edição bonita e com um acabamento legal. Tem anotações, poemas e imagens que foram tiradas do diário original da Maria Mariana, e fotos das garotas na peça original de 1992. É um livro conhecido, com uma peça de sucesso e eu nunca ouvi falar, por pura falta de cultura minha e também pelo fato do titulo me fazer virar a cara. É bem diferente do que eu achei que seria e foi uma leitura muito boa.

Eu recomendo pra quem gosta e até pra quem nunca teve contato com esse tipo de texto. E eu devo agradecer a Editora Agir e o Skoob pelo livro, valeu!


Nesse domingo tive uma viagem demorada e resolvi levar dois livros de Senhor dos Anéis e o A Revolução dos Bichos pra passar o tempo. Consegui terminar de reler A Sociedade do Anel na ida e na volta peguei o do Orwell.

Eu li 1984 primeiro e acho que errei ao faze-lo. Nesse "conto de fadas" do Orwell tem muito do que eu vi em 1984, o jeito que os porcos mascaram o passado e distorcem os acontecimentos é bem parecido com o que ele descreve como a sociedade no romance.

É um conto sobre o Comunismo. De forma geral a historia é bem esclarecedora, mas sem a leitura do posfácio do Hitchens eu provavelmente teria ficado com algumas impressões erradas sobre o regime e sobre a intenção do autor com a historia.

Ao fim da leitura eu fiquei com vontade de ler mais sobre o período histórico e sobre a vida do próprio Orwell. Se não me engano o próprio Hitchens escreveu uma biografia dele, vou procurar depois.

Outra leitura muito boa foi a do prefacio original do autor para a primeira versão, que foi extraviada na época. Nela ele fala da liberdade de expressão e imprensa, e da covardia da intelligentsia inglesa que fazia vista grossa aos acontecimentos da Russia na época da segunda guerra. Ele aponta ainda a auto-censura que eles faziam as ideias controversas e o quanto isso era atrasado.

É uma leitura esclarecedora e de simples entendimento, mesmo pra quem não tenha um conhecimento histórico-politico amplo, assim como eu não o tenho.

Quando a serie da AMC começou eu fui mais atraído pelo visual do que pelo tema de apocalipse zumbi. A primeira temporada é até interessante, eu gosto especialmente da parte em que o cavalo do Rick é devorado por um grupo gigante de "walkers" quando ele chega a Atlanta, é bem... brutal. Mas com o tempo a serie começou a ficar um tanto monótona e eu cheguei a parar de assistir por algum tempo.

O problema é que na internet continuavam a comentar e comentar dela até que eu resolvi voltar a ver só pra saber o que estava acontecendo. Acompanhei a a primeira parte da saga de Woodbury, que é boa. O governador é um vilão interessante, tanto que foram escritos livros com a história dele pros fãs mais ávidos por conteúdo. Ainda assim a serie tinha grandes períodos de calmaria que me davam sono. Não que eles tenham de matar zumbis o tempo todo, mas nem os conflitos pessoais tinham graça.

Nesse momento de tédio resolvi ler a HQ, assim eu ficaria a par do que estava acontecendo, mesmo sendo um pouco diferente. E então entendi o porque da legião de fãs de The Walking Dead. A HQ é demais!

Acontece tudo num ritmo melhor, tem personagens morrendo e chegando o tempo todo, o jeito que as pessoas ficam perturbadas por causa de toda a situação é bem real. A história é instigante e fica difícil de saber quem vai morrer, ou quem vai se matar. Essa rotatividade de personagens é uma das melhores coisas. Eu particularmente fico entretido com histórias com personagens legais, mesmo quando a trama é mais ou menos. E a HQ tem os dois, os personagens bem feitos e uma trama solida. Tem sempre pessoas com personalidades diferentes, mas que estão com a cabeça na merda como todo mundo. Eu me divirto tentando adivinhar quem vai ser o próximo a surtar.

Outra ponto forte é quando o autor te faz perceber que só sobrou gente perturbada na terra, as pessoas boas foram as primeiras a morrer e os sobreviventes adquiriram um distúrbio psicológico. O próprio Rick e seu filho Carl tem momentos de comportamento psicopata. Em certa parte o grupo tortura outros sobreviventes. Cada vez mais eles ficam preparados a fazer sacrifícios pra se manterem vivos.
A história conta com poucos grandes vilões. Os conflitos são numerosos, tanto dentro do grupo quanto contra as pessoas que eles encontram na estrada , mas apenas dois vilões apareceram nos dez anos de publicação da HQ. O Governador e o Negan.

O primeiro já apareceu e morreu até mesmo na serie. Já Negan e seu taco de beisebol com arrame farpado chamado Lucille ainda aterrorizam o grupo do Rick no arco atual: All Out War (algo como Guerra Geral). Nesse arco três grupos grandes se unem contra os Saviors que tem Negan na liderança e é uma especie de culto/milicia que extorquia outras comunidades de sobreviventes.


Uma das coisas mais interessantes do Negan é o jeito que ele troca de ponderado pra maluco bem rápido. Ele mata uma pessoa como se fosse a coisa mais natural do mundo (o que é, no caso deles) e continua com as suas atividades normalmente em seguida. Ele parece ter se apresentado como uma especie de Messias pros seus seguidores e as regras dele são absolutas. Sempre que ele aparece em alguma cena há uma expectativa de alguma merda vai acontecer. O problema Negan ainda não foi resolvido na HQ e agora só resta esperar a próxima publicação.

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