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Publicada originalmente de 1895, O Rei de Amarelo de Richard W. Chambers, é uma coletânea de dez contos publicada em 2014 no Brasil pela Intrínseca em uma edição comentada por Carlos Orsi. A obra foi influência para diversos escritores de fantasia e horror, como: H. P. Lovecraft, Neil Gaiman, Stephen King e, mais recentemente, Nic Pizzolatto criador da série True Detective exibida pela  HBO.

“O mar quebra pela orla, vago, 
  Os sóis gêmeos afundam sob o lago, 
  As sombras se alongam 
             Em Carcosa. 

  Estranha é a noite em que estrelas negras sobem, 
  E estranhas luas o céu percorrem 
  Mas ainda mais estranha é a 
             Perdida Carcosa. 

  Que morra inaudita, 
  Onde o manto em retalhos do Rei se agita; 
  A canção que entoarão às Híades na 
             Obscura Carcosa. 

  Canção de minh’alma, minha voz é finada; 
  Morra sem ser entoada, como lágrima jamais derramada 
  Seca e morta na 
             Perdida Carcosa."

“Canção de Cassilda” em O Rei de Amarelo , ato I, cena 2”


Os contos tem os Estados Unidos e a França do final do século XIX e, no conto de abertura, começo do século XX. O amarelo dos trajes do Rei era a cor do pecado e da loucura na sociedade inglesa nos anos 1890 e também nessa cor eram encadernados os livros dos autores decadentes franceses importados a Inglaterra.

Os quatro primeiros mencionam diretamente o livro O Rei de Amarelo, uma peça de teatro em dois atos, considerada uma obra prima que atinge o leitor ao ponto de lhe causar a loucura. Os dois que se seguem marcam a transição da fantasia para quatro contos mais realistas, contos românticos ambientados em Paris. Orsi nos conta ainda que em algumas edições publicadas após a morte de Chambers omitem os últimos contos, substituindo-os por contos de terror e fantasia do autor tirados de outras coletâneas.

Grande parte do que me agradou no livro ficam nos primeiros quatro contos: O Reparador de Reputações, A Máscara, No Pátio do Dragão e O Emblema Amarelo; que tem um horror psicológico bem agradável. O Emblema Amarelo foi o mais prazeroso de ler, principalmente no escuro (já que li em e-book), às três da manhã e próximo a uma janela aberta (pra qual eu olhava o tempo todo).

Na transição temos A Demoiselle d’Ys, um conto de fantasia divertido; e O Paraíso do Profeta, com oito poemas em prosa, coisa da qual não entendo nada. E então temos o Quarteto das Ruas: A Rua dos Quatro Ventos, A Rua da Primeira Bomba, A Rua de Nossa Senhora dos Campos e Rue Barrée; que, como mencionado, são contos de romance.

É uma leitura fácil, se você não tentar pronunciar as frases em francês corretamente, e só me arrastei um pouco pela segunda parte, mas só por não ser o tipo de leitura que faço habitualmente. Os comentários de Carlos Orsi tem bastante informação complementar sobre as referências do próprio Chambers e sobre os autores que foram influenciados pela leitura d'O Rei de Amarelo. É também um livro importante pra literatura de terror.

Prince of Thorns é o primeiro livro de Mark Lawrence, o primeiro da Trilogia dos Espinhos, e a história de Honório Jorg Ancrath, príncipe herdeiro do reino que carrega seu sobrenome, um jovem que cumpre suas promessas. O livro foi trazido ao Brasil pela editora Darkside, a publicação brasileira mais bonita que tenho.

"Você só pode vencer o jogo quando entende que se trata de um jogo. Deixe um homem jogar xadrez e diga a ele que todos os peões são seus amigos. Diga que ambos os bispos são santos. Faça-o lembrar de dias felizes a sombra das torres. Deixe-o amar sua rainha. Veja-o perder tudo."

Ambientado em um cenário pós-apocalíptico fantástico, em Prince of Thorns a humanidade foi forçada a retroceder a Idade Média por uma catástrofe nuclear documentada como o Dia dos Mil Sóis. Tal calamidade sobrecarregou os portões da Morte que colapsaram e liberaram almas de muitos de volta ao mundo dos vivos. Sobrevivendo sobre os escombros do velho mundo e de seu conhecimento deixado nas páginas dos livros, a sabedoria dos grandes filósofos e intelectuais da história; além da magia dos necromantes e dos magos, usufruindo de algumas tecnologia enquanto continuam alheios ao seu funcionamento completo.
Acompanhamos Jorg, jovem de recém completos quatorze anos, que após revelar sua descendência real a sua Irmandade de rufiões, usa-os como peças em um ''jogo dos tronos'' em que se vê como jogador. O jogo d'A Guerra Centenária pelo poder sobre todo o império, e muito mais complicado e obscuro do que Jorg tinha consciência.
Jorg Ancrath é um garoto frio e calculista, sua personalidade forte emerge após o profundo trauma sofrido aos nove anos de idade. Ele assiste sua mãe e irmão mais novo serem assassinados a mando de Conde Renar, rival de seu pai, enquanto preso em arbustos de um espinheiro de Roseira-Brava. Deixado profundamente ferido física e mentalmente, Jorg é arrancado da infância para o mundo da corte e suas disputas.
Dentre os irmãos de Jorg destacam-se Sir Makin, um guerreiro resiliente chefe da guarda real incumbido de trazer o herdeiro de volta quando ele foge pra se juntar aos rufiões que chama de irmãos; e Nubano, o guerreiro negro feroz que é, junto de Sir Makin, um dos amigos mais próximos do príncipe.
A narração em primeira pessoa de Mark Lawrence nos dá uma visão bem ampla da personalidade de Jorg e seus fantasmas. Mantendo o garoto em foco absoluto, quasee nada é dito do passado de outros personagens. Ele é extremamente desapegado de sua Irmandade, com pequenas exceções, e sua narração egocêntrica pouco os desenvolve além de suas capacidades como soldados.
A jornada é empolgante do início ao fim e mantém o leitor pendurado a cada acontecimento, aguardando o próximo desenvolvimento ansiosamente. E, ao contrário do que se poderia pensar, a circunstância e a sorte tem papel importante nas vitorias de Jorg. Sempre se descrevendo como um jogador ele é, na verdade, impulsivo e arrisca tudo consecutivamente com suas estratégias suicidas.
A atitude do protagonista em conjunto com uma trama muito bem desenvolvida e a ambientação interessante fazer o livro valer a pena do começo ao fim.

Desventuras em Série é uma serie infantil escrita por Daniel Handler, sob o Pseudônimo de Lemony Snicket, e conta a história dos Irmão Baudelaire desde o momento em que eles se descobrem órfãos e por todas suas desventuras em 13 livros. Esses e outros trabalhos de Lemony Snicket foram lançados no Brasil sob o selo Seguinte da Companhia das Letras.

“Se você tem interesse por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos.”

A história se passa em uma versão de nosso próprio mundo, porém com características fantásticas. Com um caráter atemporal, a série tem elementos do início do século XX, cita trabalhos científicos e obras literárias modernas, e contém diversas referências a autores e poetas dos séculos XIX e XX.

A série começa com Violet, Klaus e Sunny Baudelaire em uma praia num dia nublado quando Sr. Poe os aborda com a notícia da morte de seus pais num terrível incêndio, que além de deixá-los órfãos destruiu sua casa. Tal tragédia os leva aos cuidados de Conde Olaf, um parente distante, que pretende roubar a fortuna herdada pelas crianças e livrar-se deles no processo. Assim começa a narrativa de uma série de desventuras e o desenrolar da história revela grandes segredos sobre os pais Baudelaire e uma incrível organização secreta da qual faziam parte.

Violet é a mais velha dos Baudelaire, com quatorze anos, e uma grande inventora. Prendendo seu cabelo com uma fita vermelha para que não fiquem na frente de seus olhos e concentrar-se, ela é capaz de criar os mais inusitados aparelhos, com a combinação dos mais inusitados itens, e tira-los de muitas enrascadas.

Klaus é o irmão do meio, com doze anos, e um leitor inveterados. Passou muito tempo entre os livros da grande biblioteca na mansão de sua família. Com suas capacidades de pesquisa e seu conhecimento avançado em vocabulário, ele aplica o conhecimento que acumulou em salvar o que restou de sua família.

Sunny é a casula, com apenas alguns meses de vida, mas já muito inteligente. Com o melhor par de dentes que alguém poderia ter, ela roí a saída de diversas enrascadas com seus irmãos. Apesar das inteligência, sua pouca idade dificulta a comunicação, uma vez que os bebês falam por ruídos inteligíveis. Por sorte Klaus e Violet a entendiam e faziam o serviço de tradução para os que não conseguiam. Com o decorrer da história ela descobre suas habilidades culinárias.

Conde Olaf, que antes era um ator, agora se dedica integralmente a suas atividades de vilania. De péssima aparência e hábitos detestáveis ele é o principal vilão da história, perseguindo os órfãos Baudelaire e as poucas pessoas boas que eles tem a fortuna de encontrar por seu caminho de tristezas. Junto com essa detestável figura há sua trupe de malfeitores.

A narrativa de Lemony Snicket é marcadas por suas definições “alternativas” de palavras ou frases que o público de seus livros, em geral crianças, podem não conhecer. Ao mesmo tempo ele deixa diversas referências de obras e personalidades literárias que transformam a leitura em uma diversão para leitores de qualquer idade. A trama pode ser um tanto repetitiva e em alguns pontos previsível, por outro lado a consciência disso da parte do autor gera momentos de comedia memoráveis. Lemony tem uma maneira de passar valores importantes aos leitores ao mesmo tempo que ajuda a introduzir uma realidade de infortúnios e superações.

Em Herdeiros de Atlântida, Eduardo Spohr explora o universo de A Batalha do Apocalipse com uma trama de menores proporções e personagens mais humanos. Urakin, Levih, Kaira e Denyel são os anjos que acompanhamos em uma jornada por cidades do Brasil, a floresta amazônica e reinos antigos chamados antediluvianos.

Urakin e Levih são enviados atrás de Kaira e seu guarda-costas, desaparecidos durante uma importante missão expedida pelo Arcanjo Gabriel. Sua busca leva a Santa Helena, uma cidade fictícia localizada no estado do Rio de Janeiro. Seu objetivo é descobrir o que houve com os dois anjos e se possível executar a missão do ponto em que eles pararam. Acompanhamos a jornada que faz um tour pelo país e nos apresenta Denyel, um anjo exilado.

Esse livro foi mais divertido pra mim que o A Batalha do Apocalipse, o tom é sério mas também é mais "pé no chão". Se é que se pode dizer isso de uma fantasia. A escrita de Eduardo Spohr nesse volume sai do tom épico do livro anterior, deixando a narrativa mais interessante e os momentos críticos e de tensão melhor definidos.

A trama é interessante e bem ambientada, é possível identificar que o autor fez uma pesquisa muito boa em ordem de construir os cenários e descrever as civilizações fictícias. A mitologia criada é explorada e mais detalhes sobre as castas dos celestes são incluídas na narrativa. O último ponto, porém, gera passagens didáticas que ficavam chatas depois de algum tempo e há explicações em excesso. As reações e sentimentos dos personagens são quase todos explicados e isso é algo que eu não gosto.

As batalhas são boas e bem detalhadas. Os personagens são carismáticos e, apesar de serem anjos, são menos engessados que os apresentados anteriormente. O desfecho é interessante e leva ao leitor a lugares novos, mostrando como algumas coisas funcionam no universo de Filhos do Éden. Os acontecimentos evoluem muito bem e todas as soluções são muito bem amarradas com passagens anteriores. É uma leitura fluída e divertida.

Nesse segundo volume de As Crônicas de Artur a história é cimentada pro que promete ser um fim glorioso. Com a construção dos personagens avançando e o cenário em Lloegyr sendo transformado no campo de batalha onde o futuro terá início.

Partindo do momento de gloria conquistado por Artur na batalha de Lugg somos levados pelos desafios que a paz demanda e os problemas políticos são mais intensos e importantes do que nunca. Seguindo seu sonho de uma Britânia unida, Artur tem que fazem concessões e alianças indesejadas, além de tomar decisões impossíveis, cujo custo é tão alto quanto perder a amizade de Derfel.

Ao mesmo tempo a ameaça cristã cresce e o sonho de Merlin parece se afastar cada vez mais da realização. Novos inimigos são apresentados e a trama fica mais elaborada e imprevisível. Uma estrada de incertezas que leva ao momento de maior glória de Artur, um momento que tem a tristeza de coincidir com a destruição de seu espirito.

A trama de Cornwell cresce nesse que é o meio da história, os personagens envelhecem e aos poucos o Derfel que acompanhamos no campo de batalha vai ficando mais parecido com o Derfel narrador. Em meio a tragédias e disputas Dumnonia prospera sob a supervisão de Artur. A Távola Redonda é apresentada, diferente do que se poderia esperar, e Camelot ganha um significado.

As batalhas continuam impecáveis, a trama alcança pontos surpreendentes e a astucia de Merlin consegue se superar. Essa segunda parte não perde em nada pro começo, o ritmo continua ótimo e a qualidade dos conflitos parece aumentar. As últimas linhas da história deixam um gosto amargo ao mesmo tempo que prometem o épico pro romance de desfecho.

E Não Sobrou Nenhum é um clássico dos romances de mistério escrito por Agatha Christie. O nome original da obra é Ten Little Niggers (aqui era O Caso dos Dez Negrinhos), fora mudado nos EUA e posteriormente aqui por causa da relação com racismo. O título faz alusão a uma cantiga infantil tradicional na Inglaterra.

O livro começa com uma apresentação rápida dos personagens durante o caminho que eles percorreram até alcançar a Ilha do Soldado (na versão que li, onde "os negrinhos" do poema foram trocados por soldadinho, não conheço as edições mais antigas). A ilha tinha sido comprada recentemente por um Mr. Owens e vinha sendo cercada de mistérios e fofocas.

Todos os convidados parecem muito diferentes uns dos outros e formam um grupo estranho, como é notado pelo marinheiro que os leva até a ilha em sua lancha. São recebidos por dois empregados, após se acomodarem em seus respectivos quartos eles fazem uma refeição e se reúnem após em uma sala de estar. Aos poucos eles vão percebendo algumas inconsistências nas histórias que os atraíram até a ilha, ninguém parecia conhecer os anfitriões, Mr. e Mrs. Owens, ninguém sequer os havia visto.

É então que um vinil é posto pra tocar e uma voz sinistra acusa a todos os oito convidados e o casal de empregados de assassinato em circunstancias bem diferentes, mas todos praticamente impossíveis de se provar. Todos ficam apavorados e indignados com a aparente brincadeira até que um por um eles começam a morrer, seguindo de maneira macabra os versos do poema, o qual podia ser encontrado na parede de todos os quartos.

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove,
um deles se engasgou, e então restaram nove;
Nove negrinhos sem dormir, não é biscoito!
um deles cai no sono, então sobraram oito;
Oito negrinhos vão a Devon em charrete,
um deles quis ficar, então restaram sete;
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
um deles se corta, então restaram seis;
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco,
a abelha picou um, e então ficaram cinco,
Cinco negrinhos vão ao fórum tomar ares,
um deles foi julgado, então sobraram dois pares;
Quatro negrinhos vão ao mar, a um tragou de vez
o arenque defumado, e então sobraram três;
Três negrinhos vão passear no zoológico. E depois?
o urso abraçou um, e então ficaram dois;
Dois negrinhos brincando no sol, sem medo algum
um deles se queimou, e restou apenas um;
Um negrinho está sozinho, é só um!
ele se enforcou, e não sobrou nenhum.

Os personagens são interessantes, mas eu não decorei o nome de ninguém até que tinha praticamente acabado de ler. A resolução foi uma completa surpresa pra mim e fiquei maravilhado com o quão na cara era a resposta. A narrativa da autora me fez de bobo desde o começo do livro. Cada vez que eu escolhia alguém pra ser o assassino ela me contradizia, um por um, como se adivinhasse o que eu estava pensando.

A leitura me prendeu facilmente e não consegui parar até ter terminado. Se pudesse teria lido ele todo de uma vez, mas eu preciso estudar, dormir, comer, etc. Fico pensando se todos os romances dela são assim tão instigantes.

Volume I - O Garoto-Cabra

A Lenda de Ruff Ghanor é uma história com raízes em uma aventura de RPG cheia de humor do Nerdcast, e Leonel Caldela faz um ótimo trabalho em transformar os improvisos do Jovem Nerd em uma narrativa completa, instigante e divertida.

A mitologia é bem interessante, existem santos, deuses, demônios, anãos, elfos (que são apenas mencionados), dragões, etc. Com um cenário de RPG medieval clássico com elementos novos, uma história de origem muito boa e conflitos que vão crescendo em volta de mitos e acontecimentos.

Ruff tem as origens de um herói clássico: é órfão, é o escolhido e está destinado a grandes feitos. A primeira parte da trama trata de sua infância e de seu treinamento com o prior do mosteiro de São Arnaldo (Sim, é São e não Santo), um homem com porte de guerreiro e um passado misterioso. Ruff é criado pra ser um devoto e a servir a sua fé. O prior vê nele uma dadiva dos deuses, um garoto destinado a libertar a terra da tirania de Zamir, um dragão vermelho que governa os humanos, aterrorizando-os e causando sofrimento. Pra essa tarefa ele é treinado de forma intensa em combate, em cura pela fé e tem um regime também intenso de estudos.

Além de seus irmão no mosteiro há duas figuras muito importante na vida de Ruff: Korin, que é seu melhor amigo e companheiro de aventuras, e Áxia, por quem ele se apaixona. Korin é um garoto pobre, filho de guarda da pequena vila, que sonha em seguir os passos do pai ajudando a proteger as pessoas. Ele serve de contraponto a Ruff que é poderoso, ele é humano e ordinário, ao mesmo tempo tem em si a perseverança e coragem do maior dos heróis. Áxia é ainda mais pobre e sofrida que Korin, sua mãe lava roupa o dia todo e a noite trabalha na taberna "entretendo", e seu irmão mais novo tem problemas mentais. Eles se conhecem quando Ruff salva ela e o irmão de serem apedrejados por garotos mais velhos. Áxia é inteligente e problemática, e também se envolve com magia arcana.

Um dos melhores aspectos da narrativa é que ela vem permeada por questionamento teológicos e filosóficos. Apesar das convicções do personagem toda evolução moral de Ruff é marcada por tons de cinza, criando uma evolução bem definida do herói que é facilmente acompanhado pelo leitor.
Os personagens centrais são desenvolvidos muito bem e são fáceis de simpatizar. A amizade entre Ruff e Korin protagoniza as melhores passagens de todo o livro. O romance é bom, porém em alguns momentos a relação entre Ghanor e Áxia toma toda a história e os outros são deixados de lado, em algumas partes eu senti falta da presença de Korin pra deixar a história menos tensa e nivelar o tom com o resto do livro.

Outra coisa que me incomodou é como os conflitos internos são apresentados. Eles são descritos de maneira bem direta e pouca coisa nos sentimentos do personagens é deixado para especulação, o que é meio frustrante pra mim. Nada que prejudique o livro, é um gosto pessoal.
Apesar desses dois pontos a narrativa é muito envolvente, a ação é excelente, bem descrita e empolgante. O desfecho surpreendente deixa um ótimo cliffhang pro próximo.

O propósito principal de uma boa ficção cientifica é debater e levantar questões que preenchem a mente das pessoas e apresentando-as em diferentes perspectivas. A ficção cientifica é, em seu melhor, geradora de intenso debate e de grandes reflexões sobre a realidade e o pensamento.

Em A Mão Esquerda da Escuridão, publicada aqui pela editora Aleph, Ursula K. Le Guin coloca um humano em contato com o planeta de Gethen, ou Winter (Inverno), onde ele conhece outros tipos de humanos que são bem diferentes do que nós chamamos de humanos.

Genly Ai, o protagonista, é um enviado de Ekumen, uma aliança de planetas com vida inteligente (ou de humanos), com o propósito de oferece-los um lugar na mesma. Ekumen é principalmente um canal de troca de conhecimento e cultura - já que a viagem interplanetária é muito demorada, mas a comunicação entre os planetas é praticamente instantânea com os equipamentos certos - e tem como intuito ajudar no desenvolvimento das civilizações humanas.

Na narrativa nós somos os alienígenas visitando o planeta dos outros em nossas espaçonaves. Conhecendo uma cultura que nasceu em um ambiente de frio extremo, quase que completamente hostil, com um desenvolvimento muito adverso ao que os outros oitenta e três planetas que já compõem a aliança conhecem.

No ponto central das diferenças fica a componente biológica da sexualidade: em Gethen as pessoas não tem um sexo definido sempre, eles são andróginos na maior parte do tempo. Em determinados períodos os gethenianos entram em kemmer e acontecem mudanças em sua fisiologia para que assumam um ou outro papel sexual. Sua relação com a sexualidade também é diferente, os gethenianos não parecem competir por parceiros e em geral não tem nenhum sentimento sexual fora do período determinado por seu kemmer. Isso muda a dinâmica das competições sociais em relação ao que se é acostumado a ter entre seres com sexos definidos. Do mesmo jeito, a violência e a criação dos filhos é tratada diferente.

Toda a leitura é uma imersão nesse novo mundo, com essa nova sociedade e suas crenças e política. Fascinante do início ao fim. A autora nos leva por muitas situações diferentes, dando uma visão geral de todas as classes sociais e modos de vida contidos em pelo menos dois dos reinos de Gethen, nos mostrando que mesmo sendo tão diferentes todos temos nosso jeito de causar sofrimento e de sentir amor.

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